Naílson Mangabeira Retirado na íntegra da edição 44 de O Pedregulho. Márcio Carreiro - marcio@amopancas.com O dia 19/12 foi histórico na vida de Naílson Mangabeira e para as comunidades de Pancas e Alto Rio Novo. Isso graças a cerimônia de ordenação do que aconteceu em Alto Rio Novo. Mangabeira concedeu uma entrevista exclusiva ao jornal O Pedregulho e contou um pouco mais da sua trajetória de vida, desde os tempos que morava na roça até todo o caminho de estudos percorrido para chegar a se tornar padre. Leia na íntegra: O PEDREGULHO - Sem modéstia, fale um pouquinho da personalidade de Naílson Mangabeira. MANGABEIRA: Sou uma pessoa de personalidade muito calma, tenho como base a humildade na vida e mesmo nos momentos difíceis sempre procuro manter a calma. Penso que em nenhum momento, por mais que fosse difícil, eu me desesperei, sempre mantive a calma. Eu acho que a característica base da minha personalidade é ser essa pessoa calma. Conte pra gente um pouco mais da sua vida? Nasci numa comunidade muito humilde em baixo do Rio Novo, na comunidade Sagrado Coração de Jesus. Na ocasião nós não tínhamos dois municípios: Pancas e Alto Rio Novo eram integrados. Aquela comunidade pertence à comunidade Nossa Senhora das Dores, de Mantenópolis, que pertence à diocese de São Mateus. O ginásio de esportes de Alto Rio Novo ficou lotado para a ordenação Como o Sr. descobriu que tinha a vocação de padre? Na comunidade em que eu morava meus pais e eu frequentávamos muito a igreja. Eles eram muito religiosos e eu frequentei desde criança a catequese e descobri ainda muito cedo que eu queria ser padre. Logicamente quando criança a gente ainda não tem muito conhecimento do fato, você sabe que tem um dom, uma vocação, mas você não sabe distinguir. O tempo foi se passando e por eu participar ativamente da vida da comunidade, na catequese, depois comecei a militância do grupo de jovens nas comunidades de base, que são a minha origem, enfim, no meio desse povo que eu fui descobrindo que eu tinha vocação e que eu gostaria de ser padre. O tempo passou e precisei ir amadurecendo. No decorrer da caminhada, da militância junto com o povo foi que eu tomei a decisão de então procurar um seminário e me integrar. Integrando-me eu pude perceber que a minha vocação era para a vida presbiteral, era uma vocação para a vida religiosa. E essa caminhada vocacional foi difícil? Posso te dizer que as coisas não foram muito fáceis. Primeiro quando eu entrei no seminário havia parado de estudar por um bom tempo. Então a primeira dificuldade foi retomar os estudos. Nos primeiros meses demorei um pouco pra poder retomar os estudos uma vez que se você fica fora do colégio naturalmente vêm dificuldades. Enfrentei obstáculos também naquilo que nós chamamos de vida de seminário propriamente dita. Não é fácil você chegar no ceminário e conviver com outras pessoas. No seminário nós temos pessoas que vêm de diversos lugares do Brasil, de diversas comunidades, então as dificuldades aparecem. Dificuldades eu tive, mas não posso deixar de dizer que elas me ajudaram a crescer na caminhada. Emocionado, Mangabeira ergue os braços após o ato simbólico de desatar as mãos Durante o período de preparação para a ordenação o Sr. sempre vinha para nossa região, seja pra fazer alguma missão ou mesmo para descansar. Como foi, nessa época, a acolhida de todos? Recebia muitos incentivos para continuar neste caminho? Fui enviado para o seminário saindo aqui da paróquia de Pancas. Na ocasião eu morava no Bairro Operário. Estava trabalhando aqui na região, na Pastoral da Juventude, assessorava vários encontros aqui, juntamente com diversos colegas que hoje ainda se encontram na comunidade. Pancas me enviou para o seminário pela pessoa do então pároco da cidade Pe. Eraldo Matos. Eu devo muito a Pancas. Pancas me ajudou a crescer tanto na militância pastoral quanto na vida espiritual. Sou muito grato a todo o povo de Pancas. Deixo claro que a escolha de fazer a minha ordenação presbiteral em Alto Rio Novo não foi algo contra a paróquia de Pancas. Primeiramente nós tivemos algumas dificuldades no sentido de ver datas e como eu fui batizado em Alto Rio Novo e crismado naquela comunidade olhando esse conjunto pesou um pouco na hora da decisão de fazer a ordenação acontecer lá em Alto Rio Novo. Nada contra a paróquia, nada contra pessoas desta paróquia de Pancas, muito pelo contrário, muitas foram as pessoas que marcaram minha vida, minha história aqui em Pancas. Sou grato a todos aqueles que colaboraram comigo. O que e onde o Sr. estudou para ser consagrado Padre? Quando saí de Pancas fui enviado para o Centro Vocacional Imaculado Coração de Maria, em Marilândia. Lá eu retomei o colegial porque eu havia parado. Morei quatro anos em Marilândia. Depois descobri a Ordem dos Cléricos Regulares dos Padres Teatinos, em São Paulo. Fui para uma experiência e então fiquei em São Paulo. Eles me acolheram muito bem. Devo muito a minha caminhada vocacional aos padres teatinos. Em São Paulo passei por vários períodos. Na vida religiosa a gente tem alguns períodos. Primeiramente fui acolhido no Seminário São Pio X, na cidade de Fartura, e fiz o Postulatado por um período de um ano. Depois no ano seguinte fui para o Noviciado. Terminando o Noviciado fiz os primeiros votos, me integrando assim na ordem. Aí mudei pra São Paulo capital e fui cursar filosofia. Estudei filosofia na UNIVAI (Universidades Associadas Ipiranga). Foram três anos de filosofia e saí com licenciatura plena em filosofia e também com licenciatura plena em história. Essas foram as duas faculdades iniciais que eu fiz. Na dimensão pastoral sou formado também em catequética. Terminei o curso agora pouco. Foi a linha que eu escolhi para trabalhar na igreja. Tive a oportunidade de fazer essa formação também na catequética. Concluí meus estudos em Belo Horizonte. A última etapa que a gente faz nos estudos é a teologia. Fiquei por um período de quatro anos no Instituto São Tomás de Aquino, em BH, e aí sim me formei em Teologia. Sobre a primeira missa em Alto Rio Novo e em Pancas, ficou muito nervoso ao presidi-las? Na primeira missa naturalmente eu acho que todos os neos presbíteros sentem um pouco de nervosismo. Não posso negar que fiquei. Sobretudo porque eu estava celebrando ao lado dos mestres, estava presente o meu provincial, Pe. Francisco Antunes, o Pe. Celson, que foi meu mestre na última etapa, também os colegas que estudaram comigo, um deles já é padre João Marcos, e aí você fica um pouco tenso no momento. Mas eu busquei manter a tranquilidade durante todo o tempo e acredito que é uma alegria a gente poder celebrar. A gente faz uma mistura de alegria, emoção e nervosismo, tem de tudo um pouco. Naílson Mangabeira celebrando sua primeira missa em Pancas O que o Sr. sentiu quando recebeu as vestes pelo Frei Honório e quando suas mãos foram desatadas? Frei Honório foi um padre que muito colaborou na minha vida. Desde que eu o conheci sempre convidou-me para estar na paróquia onde atuava, me dando toda a liberdade para que eu pudesse fazer um trabalho pastoral. Então por isso eu o convidei para que fizesse a revestimenta, que me entregasse a casula a qual eu usei. Foi um momento fortíssimo na minha vida. Esse momento que o Frei Honório me entregava a veste foi muito emocionante e depois num segundo momento, que me deixou também bastante emocionado, foi o momento em que minhas mãos foram amarradas e eu me apresentei à comunidade até então com as mãos amarradas para que o povo visse também a dimensão que se dá à formação. Até então a gente tem as mãos presas, num simbolismo, e de repente desata as mãos como que dizendo que agora estou pronto para o serviço e aí sim mostrando as mãos para a comunidade. Frei Honório cumprimenta Mangabeira após entregar as vestes Com certeza essa ordenação é uma vitória muito grande. O Sr. dedica essa glória a alguém em especial? Dedico primeiramente à minha família biológica que durante toda essa minha caminhada me deram muita força para continuar. Minha família em momento algum colocou obstáculos para que eu não fizesse essa caminhada. Quero dedicar com muito carinho a minha vida presbiteral à minha querida família, que me apoiou durante toda a vida. Não posso dizer que foi só no momento de formação. Minha família sempre me apoiou ao longo de toda minha história. Dedico também ao povo de Pancas, sobretudo aos meus colegas do JUSALP (Juventude Unida Santa Luzia de Pancas). Hoje esse grupo com outras características. Temos grupos de jovens que hoje caminham diferente da nossa época, mas aqui a Juventude Unida de Santa Luzia foi como uma espécie de carro-chefe para que eu pudesse responder à minha vocação. Não vou citar nome de pessoas porque talvez a gente acaba por esquecer alguns. Entre 1990 e 95 eu estive no JUSALP e aquele grupo era um grupo muito unido. Saíamos para o retiro, para os encontros da comunidade e no meio desse grupo de jovens eu pude dar uma resposta mais coerente, mais definitiva à vida presbiteral. Mangabeira entre os amigos do JUSALP Daniel e Samuel Qual sua passagem bíblica favorita? Eu tenho como meta na minha vida, o que marca muito pra mim, é Isaías 61, 1: “O Espírito do Senhor está sobre mim, Ele me ungiu e me enviou para levar a boa nova aos pobres”; dizer que Deus está no meio da sociedade. Isaías 61, a partir do versículo primeiro, é que eu me inspiro para poder fazer a minha caminhada vocacional. Escolhi como lema, que pretendo carregar por toda a minha vida, Atos 17, a partir do versículo 27, que é o lema que está estampado no convite que eu fiz: “Nele somos, nos movemos, existimos”. É a palavra do apóstolo Paulo a uma comunidade diferente da dele, e então ele fala que seu Deus é o Deus que move, faz viver e faz o existir. Qual o seu maior sonho em relação a Pancas e Alto Rio Novo? Pretende algum dia ser pároco de alguma dessas comunidades? Acredito que todo e qualquer vocacionado que vai pro seminário e torna-se padre ele pensa um dia em trabalha na sua terra natal. Seria pra mim uma alegria um dia poder voltar e servir mais de perto o nosso povo. Eu não teria uma preferência entre Pancas e Alto Rio Novo. Penso que as duas comunidades sempre me acolheram muito bem. Fiquei encantado, sobretudo agora na reta final com Alto Rio Novo no sentido de ver o trabalho pastoral que é desenvolvido. Se algum dia tiver a oportunidade virei pra um desses lugares com muito prazer. O que eu quero mesmo é colocar minha vida a serviço do povo de Deus, independentemente do lugar que eu esteja. Trago no coração essa cidade de Pancas e carrego comigo a cidade de Alto Rio Novo, que é fruto do município de Pancas. Penso que temos as mesmas características, o trabalho pastoral segue na mesma linha... se um dia puder trabalhar aqui será mais que um prazer, será uma honra. Como foi a cerimônia de ordenação? Particularmente eu não parei ainda pra avaliar a cerimônia como um todo, mas daquilo que vem na memória agora posso dizer que encantou-me a organização que a paróquia teve para receber as pessoas. Desde a liturgia até as hospedagem foi muito bem trabalhado. Sou grato a Alto Rio Novo por ter dedicado de uma forma total para que a ordenação pudesse acontecer da melhor maneira possível. Foi um momento de graça pra mim e penso que foi também para todo o povo de Alto Rio Novo e todas as pessoas que foram. Tenho certeza que a liturgia foi preparada com muito carinho e atendeu às expectativas das pessoas que foram participar da ordenação. Desde os cantos, liturgia como um todo, ornamentação, enfim, o conjunto foi muito bem trabalhado. Vieram pessoas de diversos lugares do Brasil, das nossas comunidades próximas e também pessoas que vieram de outros países, embora sejam brasileiros, como pessoas dos Estados Unidos, que são filhos da terra mas que há muitos anos já estão fora. Recebi a presença de pessoas também que vieram de Buenos Aires, na Argentina, de Belo Horizonte, São Paulo, do Pará, pra mim foi uma honra poder receber todo esse povo e saber que nossas amizades se estendem pelo país e até fora dele. Espaço para considerações finais. Gostaria de agradecer a você, Márcio, por fazer essa entrevista, agradecer com carinho a comunidade de Pancas, que também nos recebeu, o Pe. Cremilson que me proporcionou a liberdade de celebrar algumas missas nas paróquias. Isso é motivo de muita alegria. Quero que fique bem claro que a gente gosta muito dessa cidade, do povo de Pancas e vou sempre rezar para que nossa cidade possa progredir tanto na vida espiritual quanto na vida econômica porque a gente vê as pessoas bem e isso nos deixa feliz. Agradeço a todos que colaboraram com a preparação da minha ordenação. Todas aquelas pessoas que ao longo desses nove anos de vida religiosa com os teatinos mais quatro como experiência diocesana, todas as pessoas que passaram na minha vida me ajudando eu quero dizer muito obrigado e um especial ao Padre Aristeu Antônio Anastácio, foi com quem tive os primeiros contatos nos Teatinos. Parabenizo o jornal O Pedregulho, que eu tenho lido sempre por meio do site. Vocês estão de parabéns pelo material que estão elaborando, o jornal está ficando muito bom, tive a oportunidade hoje de passar na banca e dar uma lida no jornal e eu acho que ele está bem articulado e com certeza vai crescer mais. E isso é muito bom para que o povo da nossa região leia algo que é produzido aqui na nossa própria região. Agradeço todo o apoio da imprensa que esteve comigo na ordenação. Nós tivemos lá a Rádio de Alto Rio Novo, também os flashs da TV do Espírito Santo, o jornal que também apoiou, é muito bom isso porque ajuda a divulgar o nosso trabalho. Muitíssimo obrigado por nos receber e a todo povo panquense e rionovense o meu muito obrigado. Que a bênção de Deus seja derramada abundantemente sobre nossas famílias. Que Deus nos abençoe.
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