VINCENZO MARIA MORELLI: O DOM DE UMA VIDA Como é do conhecimento de todos, foi convocado em toda Ordem dos Clérigos Regulares Teatinos, uma Circular convocando o Ano Vocacional Teatino em 2012, por ocasião dos 300 anos da Canonização de Santo André Avelino e 200 anos de transito do Venerável Vicenzo Maria Morelli. Todo mês nosso blog irá fazer conhecer um pouco sobre esses dois teatinos que tanto amaram a Cristo que decidiram segui-lo de forma radical. ARCEBISPO TEATINO DE OTRANTO O DOM DE UMA VIDA Autor: Pasquale Di Pietro (Traduzido do original em italiano por Robson Antonio, CR) O DOM DE UMA VIDA “Mas vós, Monsenhor não deveria jamais morrer”, é o elogio que resume de modo significativo uma vida feita dom, brotou de forma aguçada e espontânea observação de um oficial francês presente um dia em uma habitual e qualificada conferência teológica de Sagrada Escritura do arcebispo teatino, em Otranto, Dom Vicente Maria Morelli. Com toda razão. Os santos não deveriam jamais morrer para ser com o testemunho das suas vidas centradas sobre a Palavra intemporal de Deus, o silencioso chamado às nossas deficiências e o constante estimulo ao proceder retamente. Mas, porque um francês em Otranto? Pergunta que espontaneamente vem a nossa mente. Portanto, antes de proceder na ilustração da vida do Venerável Vicente Morelli, è oportuno fazer qualquer referimento à realidade histórica que permite compreender melhor a personalidade do nosso venerável, sobretudo no período do seu ministério episcopal na sede de Otranto (1792-1812). Otranto fazia parte do reino de Nápoles, então sob a dinastia Bourbon governada por Ferdinando IV.
Quando todo este território se torna submisso da França, como resultado das empreitadas napoleônicas, será como se afirmará nas paginas seguintes, atacado por muitas mudanças: abolição dos privilégios, venda dos bens eclesiásticos, privações da liberdade de imprensa, subtração dos conventos, paróquias, bispados, sujeitos a assaltos de obras de arte de valor inestimável e a saques de toda natureza. O exército francês chegou à Itália no ano 1796 (primeira campanha da Itália) comandado pelo jovem general Bonaparte, homem de personalidade de multifaces tanto que mandou dizer ao Manzoni no seu famoso ode (canto) “Em 15 de maio” que Deus quer imprimir nele a mais extensa pegada do seu espírito de criador” e que do Iluminismo e da revolução havia herdado uma mentalidade cosmopolita.Mas será na segunda campanha da Itália (1800) que o exército francês sob o comando de Joaquim Murat, cruzando os territórios pontifícios, atacará e vencerá as tropas de Ferdinando IV de Nápoles, de modo que os territórios Bourbon tornar-se-ão domínio da França. Aqui, então, a razão da presença de um francês em Otranto. Depois de mencionar os eventos históricos do tempo, é apropriado perguntar-se: Mas quem é Vincenzo Maria Morelli? Quem é este sacerdote religioso teatino e bispo capaz de estabelecer-se assim de maneira incisiva e estimulante tão eficaz? É um homem nada comum pela riqueza interior, ampla de cultura e inteligência vivaz: descrever as obras, ou melhor, a vida colocada ao serviço da Igreja, da sociedade, do ensino e da sociedade, é missão nada fácil; também pela escassez de documentos significativos dos referimentos a disposição. Ele honrou altamente a sua terra pugliese. (a Apúlia (em italiano Puglia) é uma região da Itália meridional com 4 milhões de habitantes e 19 000 km², cuja capital é Bari. Tem limites a oeste com Molise, Campania e Basilicata, ao sul com o Mar Jônico e a oeste e norte com o Mar Adriático. Desde os tempos do Império Romano a região é denominada Apúlia. (Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Apulia) e deixou na sua história civil e eclesiástica uma profunda marca indelével; sua pessoa ainda hoje impõe à nossa admiração, os seus ensinamentos, passado o tempo, são vivos de surpreendente atualidade para todos nós que estamos sobre o caminho do 3º milênio. Podemos certamente defini-lo o homem da Palavra de Deus e do Evangelho chamado por ele mesmo “diviníssimo”, lido sempre de joelhos atentamente meditado e depois encarnado no cotidiano. Será só a Palavra de Deus a iluminar o caminho e dar força ao espirito para poder superar situações particulares em que vai encontrar-se mais tarde, sobretudo no ministério episcopal; e quando for instituída no Seminário de Otranto uma Academia de Sagrada Escritura, queria reservar-se a explicação dos passos mais difíceis que apresentava aos ouvintes numa linguagem simples e persuasiva. UMA FAMÍLIA COMUM DA PUGLIA Vicente Maria Morelli nasceu em Lecce em 25 de abril de 1741,(Lecce é uma comuna italiana da região da Puglia, província de Lecce, e é a principal cidade da península salentina, com cerca de 95.907 habitantes. Estende-se por uma área de 238 km², tendo uma densidade populacional de 350 hab/km². Faz fronteira com Arnesano, Cavallino, Lequile, Lizzanello, Monteroni di Lecce, Novoli, San Cesario di Lecce, Squinzano, Surbo, Torchiarolo (BR), Trepuzzi e Vernole Fundada há mais de 2000 anos pelos Messápios, foi ao longo dos anos parte do Império Romano, do Bizantino, do Normando e do Espanhol. É conhecida como a Florença do Sul devido à riqueza do Barroco em todo o centro histórico, sendo de realçar a Igreja de Santa Croce (Chiesa di Santa Croce) e praça da Catedral (Piazza del Duomo). Possui também importantes ruínas da Roma Imperial, como o anfiteatro do século II d.C. – – Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Lecce). oitavo de 12 filhos, em uma família com princípios cristãos; os doze filhos que a compõe são expressão clara da retidão do pai José Ludovico e da mãe Rosalia Perrone, educadores incomparáveis dos seus filhos com exemplo de vida mais do que com palavras. A experiência ensina hoje muito mais do que ontem, que este é o ensinamento mais convincente para os filhos, que permite mais tarde recolher frutos abundantes, e que a primeira escola de formação humana e cristã é a família. A história de cada homem deve ser revista à luz desta verdade. Francisco, Zenobio, Maria Teresa, Bernardino, Oronzio, Margarida, André, Vicente, Carmela, Franca, José e Francisco serão homens e mulheres de religiosidade heroica, distinguindo-se pela fineza de inteligência, como ilustres estudiosos de filosofia, de geografia, de matemática e professores eméritos nas melhores Academias de Ciência do seu tempo. André que precederá na Ordem Teatina o venerável Vicente Maria, depois de ter lecionado em Veneza e em diversas cidades da Lombardia, foi enviado do Papa, primeiro a Leopoli na Polônia e em seguida a Constantinopla, onde permaneceu por muitos anos colaborando na pacificação da Igreja latina com os cismáticos Armênios. Com exceção da irmã Margarida, que se retirou no Mosteiro das Capuchinas – onde viverá e morrerá santamente – as outras irmãs dedicaram suas vidas ao ensinamento da filosofia e da língua latina, sabendo deixar no momento oportuno também as suas cátedras para dar nas várias igrejas da cidade de Lecce encontros de catequese, traduzidos por elas mesmas do latim. José, o penúltimo, entrará na Ordem Teatina sem, porém chegar ao sacerdócio: morrerá prematuramente com um tumor no cérebro; Francisco último dos irmãos viverá longe dos ruídos do mundo, empenhado na prática das virtudes cristãs da mortificação e do serviço aos pobres, cuidando ao mesmo tempo, de ensinar matemática nas velhas escolas da cidade de Lecce. Assim brevemente se apresenta a numerosa família Morelli, que viveu há dois séculos, em um tempo longe e por isso diferente do nosso, mas que deu aos filhos uma educação religiosa e civil, válida, atual que serve de exemplo para tantas das nossas famílias. DEUS CHAMA Doçura e sensibilidade marcam a juventude de Vicente Morelli, prerrogativa que unida à humildade o acompanharão por toda a vida. Deus entre outros lhe deu o dom de uma mente afiada e de uma memória brilhante, a tal ponto de ser superior a todos os outros irmãos, que imediatamente chamou a atenção dos seus professores. Desde jovem apaixonado pela Sagrada Escritura, fez suas tantas passagens da Bíblia; as meditava com proveito espiritual e mais tarde nos anos seguintes as repetirá no momento necessário todas de memória com a máxima precisão, sugerindo-as aos seminaristas e aos sacerdotes.Muito cedo Vicente sentiu o chamado de Deus ao seu serviço. Respondeu-lhe generosamente no auge de sua juventude, ingressando na Ordem dos Padres Teatinos, sustentado nesta sua decisão jovial, dos sábios e prudentes conselhos do papai José Ludovico. Iniciou o noviciado na Casa de Santa Irene de Lecce, sob a orientação do padre Agostino Lubelli, sacerdote muito conhecido por profunda doutrina e santidade de vida. Livre dos compromissos escolásticos se doou com maior decisão e fervor ao serviço de Deus: primeiro em todas as observâncias da Regra, assíduo e pontual em todas as obrigações da nova vida que se preparava para abraçar, se torna exemplo e modelo para os companheiros. Conquistado pelo amor de Deus, o coração do homem se transforma: parece-lhe sempre muito pouco aquilo que se faz para Ele, e tudo se faz com alegria. De caráter mais reservado, mas sempre aberto à jovialidade e ao diálogo com os coirmãos, o jovem noviço durante as horas de recreação e com a permissão de seu mestre amava retirar-se no quarto para ler a Sagrada Escritura, um livro que, imitando a São Caetano e os primeiros Padres Teatinos, levava sempre consigo; ajudado dos dois talentos de memória (afiada e brilhante “acréscimo do tradutor”) citava literalmente os trechos, as sentenças e as máximas mais importantes, despertando a admiração dos que o escutavam. O estudo apaixonado pela Palavra de Deus será a sua peculiaridade e lhe permitirá, em seguida, de falar com plena competência nas diversas Academias de Ciência, às quais participará como professor perito de Escritura e como Bispo. PRÓXIMO AO SEU FUNDADOR SÃO CAETANO Terminado o ano de noviciado, em 27 de abril de 1757 Vicente Morelli foi admitido à profissão religiosa e depois de alguns meses foi enviado a Nápoles na Casa de São Paulo Maior onde estão guardados os restos mortais de São Caetano e dos outros santos Teatinos. Inicia neste lugar os estudos de filosofia com o professor Felipe Lopez-Royo, sacerdote teatino, primeiro bispo de Nola e mais tarde arcebispo de Palermo. Ainda com dezoito anos, depois de um cuidadoso exame, os superiores o encontraram idôneo para poder iniciar em Roma o estudo de teologia realizado com muito proveito; se revelou ao mesmo tempo hábil nas ciências matemáticas e na astronomia. Aprofundou tão bem estas matérias que ao terminar o curso de teologia, foi destinado à Academia das Ciências de Verona para dar aulas de matemática e de astronomia. Entre os seus alunos teatinos encontramos o célebre matemático Pietro Cossali. Uma vida intensa de estudo e aulas não o distraíram dos exercícios das virtudes, antes, o renderam mais humilde a ponto de se envergonhar de se sentar na cátedra para dar aulas aos alunos com mais idade do que ele. Teve que intervir com autoridade o superior dizendo-lhe: “Humildade poderá exercita-la quando estiver entre os seus, mas não quando você está em público, isso poderia prejudicar a honra da Igreja e da sua Congregação”. Na comunidade era também cumpridor das menores regras, dizendo que “Deus tem mais necessidade da minha humildade que do meu saber”. Verona circundou de estima e afeto este jovem professor de astronomia que o viam tão devoto e enamorado de Deus, que quando se apresentava na Academia, para as disputas públicas, os veronese corriam para escutá-lo e diziam: “eis o sábio, eis o santo”. Quanto mais ele se esforçava em selar a sua doutrina tanto mais se apresentava grande pela sua profunda humildade, sobretudo diante dos estudiosos. Regressando a Nápoles, o rei Ferdinando IV para mostrar-lhe sua admiração pessoal e de toda a cidade, com decreto de 01 de abril de 1779, o nomeará sócio da Academia das ciências, das letras e da matemática pura. A ciência, a virtude da humildade, o amor a Deus ajudam o homem a chegar muito alto na santidade, e é isso que acontece ao sábio e ao religioso Vicente Maria Morelli. DA CÁTEDRA AO ALTAR Após alguns anos de estudo e de magistério, as grandes qualidades da mente, do espírito e da piedade do jovem Vicente Morelli não permitiram aos superiores de esperarem ainda para que recebesse a ordenação sacerdotal. Certamente, na cátedra de astronomia e de matemática que ocupava em Verona se revelava brilhante exemplo de vida religiosa e cristã e, ao mesmo tempo, de caridade e de humildade, mas a consagração a Deus deveria ser total. A sua doutrina e a santidade de vida com o sacerdócio, traria um grande bem à Igreja de Deus e às almas.No dia da Santíssima Trindade em 16 de junho de 1764, o jovem professor Vicente Morelli não subia mais na cátedra, mas sobre o altar de Deus para celebrar a sua primeira missa. Os historiadores nos referem que sobre o altar não parecia um homem, mas um serafim, tão grande era a devoção e a compostura da sua pessoa.A cidade de Verona, embora desejando ardentemente, não pode desfrutar quase nada do seu ministério sacerdotal. De fato, ele deve suspender as aulas e o apostolado sacerdotal que tinha apenas iniciado a exercitar, para transferir-se a Nápoles para ensinar as matérias de sua competência; e mais, lhe foi confiada a cátedra de Sagrada Escritura, sendo ele não menos versado nas línguas grega e hebraica.A Providência lhe reservava também outra tarefa muito delicada: aquela de preparar os jovens aspirantes à vida religiosa teatina. Foi nomeado Mestre de noviços, serviço que, com generosa dedicação, ele fez por dezessete anos. Foram anos caracterizados de afabilidade, pela doçura com que tratava os noviços, colocando o seu exemplo com a bondade da sua vida. Cuidava para que na preparação à profissão religiosa houvesse também o estudo da Sagrada Escritura. Era muito compreensivo e humano com relação a eles e em qualquer controvérsia tomou defesa junto aos superiores. Ao mesmo tempo exigente na observação do silêncio nas horas estabelecidas, ao exigir assídua pontualidade no coro e a máxima diligência na limpeza da igreja a eles confiada. Exigia que tivesse ordem e esplendor em cada ângulo da Casa de Deus. EM NÁPOLES ENTRE OS JOVENS Na comunidade de São Paulo Maior, as horas do dia eram vividos pelo padre Vicente intensamente entre a escola e a formação religiosa dos jovens noviços; ele conseguia conjugar admiravelmente a ação de Marta com a contemplação de Maria. Frequentemente exortava os seus noviços e alunos a não deixar-se tomar pelo ócio, com estas palavras “meus filhos, façam com que o demônio não os encontre nunca no ócio. O ócio, meus filhos, é por si um pecado, e é o mais implacável inimigo da salvação das almas e a rede mais poderosa da qual se serve o demônio para arrancar as almas do céu”. E quando os via trabalhar graciosamente repetia: “É melhor desfazer o que se fez e começar de novo, do que ficar no ócio”. Circundado pela admiração dos co-irmãos e de tantos sacerdotes e leigos que iam a ele para a confissão e para pedir conselhos, ele sabia viver, porém, retirado no silêncio profundo de uma vida interior, de uma vida de oração e de união com Deus. Era dirigido neste seu caminho espiritual pela iluminada orientação de um santo: São Francisco Saverio Bianchi, sacerdote barnabita. A meditação sobre a Paixão de Cristo, a Eucaristia e uma terna devoção à Virgem Maria, que ele invocava com o doce nome “mamãe” estes foram os pilares da sua espiritualidade. Pela sua mansidão os co-irmãos o definiram: “homem sem fel”, e pela sua obediência: “homem sem vontade”, duas qualidades nada comum. Esta docilidade e obediência as inculcava e exigia dos seus noviços e também dos seus co-irmãos professos, porque: “são duas qualidades, dizia, que fazem o sacerdote agradável a Deus antes de tudo e de grande ajuda ao povo”. Ainda que pudesse desfrutar de algumas exceções previstas nas Constituições, na participação aos atos comunitários porque era muito ocupado dando aulas e na pregação, ele não faltava nunca ao coro, para a recitação com os outros do Ofício Divino e para a meditação comunitária. A sua devoção e o seu recolhimento durante a celebração da Missa era tal que chamava a atenção dos presentes. Quando celebrava em público se mostrava mais solícito para não cansar os presentes, mas quando celebrava na Capela com os seus noviços, a liturgia eucarística recuperava a sua usual solenidade, compostura e intensidade espiritual. Os noviços diziam: “o nosso Mestre sobre a altar mais parece um anjo que um homem”. O padre superior da Casa de São Paulo Maior além da formação dos noviços lhe confiou o ofício de mestre de cerimônias litúrgicas, tarefa que padre Vicente desenvolveu na mais perfeição, porque repetia: “essa por ela só (celebração eucarística) bastaria para converter qualquer herético ou infiel”. Exigia, por isso, que fossem realizadas com exatidão e diligência. Sempre disponível às confissões, dedicava todo o seu tempo livre dos compromissos da obediência; seu confessionário era frequentado em particular pelos jovens e pela nobreza napolitana que acorriam a ele pela sua retidão e a sabedoria dos seus conselhos mais ainda pela bondade, a delicadeza e o respeito pelas suas consciências. Dom Luiz Pirelli, bispo de Trapani, observando o seu apostolado tão intenso, afirmou: “Este homem começa sua vida tão cheia de atividade apostólica na Congregação teatina e fora dela, que será digno de ser venerado sobre os sagrados altares”. Ainda hoje nós nos perguntamos como pode ter vivido uma vida tão intensa e cheia de compromissos religiosos e escolásticos; é sabido que a pessoa muito ocupada sabe encontrar tempo para outras atividades, sobretudo quando se trabalha com o Senhor no coração e somente para Ele. É o preguiçoso ao invés, que está sempre cansado e incapaz de um empenho estável e duradouro.
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